O «PERNA»
Foto Facebook JVUma das últimas catedrais da comida familiar. O Perna ganhou nome porque uma das suas pernas é amovível para todos os pontos cardeais, tendo como bússola um joelho manhoso. Não é manhoso, não é cardeal, é o papa. Faz papas com almeirões e couve cortadinha no azeite com dente de alho para dentes mais delicados. Trabalha o peixe e as carnes no carvão como nas antigas forjas se batia o ferro ardente para as ferraduras, hoje dentaduras delicadas.
A função começa ao balcão de mármore. Taças de branco – hoje inaugurámos um garrafão cheio!
Se vem visitante novo, a D. Maria faz o número de sempre: enche os copos para quem está (um a mais para o Perna), ergue um a dar de beber ao viajante, estica o braço para o serviço e, quando o novato se prepara para o adoçar nos lábios, ela recua no movimento e bebe-o de um trago. Acho que depois diz «Bem-vindo!» entre um fosca-se a baixar silêncios.
Depois a mesa farta. A capital da entremeada, para mim a melhor batata frita do Sicó cortada a máquina alemã.
Chegam-se às mesas quando a clientela está servida. Um copo ali, outro copo aqui, uma anedota e, hoje, direito a fotografia.
- Tira lá isso pá, olha aqui dois bêbados! – disse a D. Maria de jarro na mão, partilhando com o Perna um altar onde cozinham amores sofridos de anos a fio.
Estão, sem o saber, a partir de hoje no Faceboock.
Quando chega à mesa o café e a Frise (aguardente camuflada à ASAE), tudo fica no ponto. Eles felizes por nos terem à mesa, nós felizes por sermos família.
Ir ao Perna passou a ser uma peregrinação. E tem outra vantagem:
- é mais perto do que peregrinar a Fátima, tem uma Maria que pouco tem de Virgem e só na saída é que é possível andar de joelhos sem choros nem velas. Outro joelhódromo para cumprir nas vivências do Sicó.
Sabores

Para que os guardes,
todos os diamantes que fazem uma romã,
aberta neste estranho tempo de um raro calor de Outono
como quem contraria beijos fora de época.
no Público, hoje
(clicar na imagem para aumentar)Laura Ferreira dos Santos já escreveu
quase tudo sobre que vida interessa preservar na morte. mas há muita gente que ainda não leu e é preciso continuar a escrevê-lo. para todos nós que um dia também perderemos a vida. para quase todos nós que um dia seremos "a família" dos que morrem. para aqueles de nós que trabalham segurando na mão a morte dos que já mal vivem.
Etiquetas: Laura Ferreira dos Santos, morte
Gripe, há?

Nunca tive especial afecto por pontas de seringas. Um camionista de longo curso meu amigo poderia ter sido o eleito para transportar as célebres vacinas da Bélgica para aqui. Estampou-se, tinha camião de frio, frio ficou ele de susto.
Não tendo sido ele o eleito para lidar com a bicharada, escolheram os eleitos (ditoso povo da reserva da Nação!) para dar saída à reserva nacional da vacinação.
Quem tem cú tem tido medo! Todos fogem com o cú à seringa do SNS da democracia eleita a voto do povo.
Povo sou eu e a ele pertenço como disse um fado. Povo sou eu, lavo as mãos, empurro as portas públicas com os cotovelos, tusso para os pés e deixei teimosamente de coçar o nariz.
Enquanto não vir a seringa em horário nobre a entrar na nádega do Cavaco, do Sócrates e da Ana Jorge vou aguentando por aqui, mantendo o cú nas calças, entre as pernas.
Na doença, como ouvi hoje dizer, parece que temos pela primeira vez solução a mais. Ninguém quer dar o cú ao caso, ao acaso.
Mas a aplicada ao director-geral da Saúde, Francisco George fez todo o sentido. Com aquele aspecto, todo ele é uma pandemia!
- E ó Mónica, ó Cabrita, tussam-me uma garantia, a gripe, há?
Coimbra-B

se ainda me bate forte o coração quando passo por Coimbra-B? mas claro, com tanta, tanta, força que me invade a agonia desesperada do fim das coisas todas que lá conheci. o fim que começava com a voz do chefe de estação "vai dar entrada na linha número dois o comboio inter-regional com destino a Porto-Campanhã" e avançava depois com o assomar da automotora - trágica e inexorável - na curva ao fundo da linha, numa marcha lentíssima que sabíamos ia acabar com tudo o que tínhamos quando nos descobríssemos dentro do comboio sós, desasados e sem nos conseguirmos lembrar como é que se vivia, como é que se respirava.
Coimbra-B está renovada, modernaça, limpa e colorida e, no entanto, não passo por lá sem que me surjam através da janela memórias a preto e branco das nossas mochilas no chão, sem ouvir violas e vozes ameaçando que todos os dias "são dias que passam" e sem sentir os olhos exaustos de tanto chorar.
deixamos lá, dissolvidos na argamassa e na atmosfera da tua estação, demasiada terra, demasiado sal, um cancioneiro inteiro, saudades gigantescas uns dos outros, todo o nosso medo de viver. não duvides disso David, nunca mais.
Etiquetas: comboios, os campos
em directo da linha do norte
fiz-me à linha do norte,
outra vez. entrei ontem em Campanhã e há vinte minutos voltei a embarcar em Stª Apolónia (pelas mãos da Helena, claro). prometo que para a próxima, em vez do enjoativo alfa pendular (que me deixa completamente nauseada e KO), apanho um sólido intercidades e escrevo aqui do comboio um post inteirinho, sobre esta viagem mítica.
uma história, certamente
A casa dorme um sono infantil ao fundo do corredor. O mundo está calado num amanhecer claro e fresco. Eu sento-me na quietude fronteira à caneca de café e ao cigarro nos dedos. Os livros das estantes humedeceram as palavras. Estou num só ângulo de acordar.
Não tarda e um comboio chega a acabar no sul, trazendo o nevoeiro que o granito do norte guardou para nós. Outra dimensão terá o dia.
Mas é a quietude que sinto e é essa que compõem estas palavras desalinhadas. Se durasse um pouco mais de tempo o sono da casa e do mundo, o que farias?
Uma história.
Uma história para caber nela esta mesma história de amor, este mesmo respirar, esta mesma incompleta forma de vida, este mesmo tudo que, às vezes, a falta de quietude não deixa percepcionar.
Uma história igualzinha à vida.
Para a Mónica

Agora sim,
somada a tua idade pedra a pedra,
e ligadas entre si pela tua insistente disponibilidade,
começa-me a ser visível nesta vivência de anos
a construção de um bonito castelo.
Pedra e água. Com estas idades, que mais faremos?
M 17
Parabéns, Mónica.Fazer anos é apenas ter a hipótese de inventar uma idade.
Lisboa diz...
(Alfama)
Alfama

Tínhamos esta história por contar e ontem, o JV da
Lisbon Walker, fez a história num passeio por Lisboa.
A luz de Lisboa fez ao dia. Aquela luz dourada que só Lisboa sabe e que se esquina entre becos, se arredonda nas fachadas pombalinas e se derrama junto ao rio. O dia, ontem, alindou-se para o nosso passeio.
Gosto tanto de saber as histórias escondidas, gosto de como elas nos referenciam simples fascínios e os tornam imensos. Por isso gosto que me contem histórias. Ontem foi de um pedaço de Lisboa rente ao rio. Foi Alfama. Foi a luz e as coisas que não sabemos que deixaram imensa a vontade de conhecer mais, de saber mais, de olhar de outra maneira.
Quantas vezes podemos recriar a cidade que conhecemos? … Infinitas.